A saúde mental dos estudantes de medicina: como isso impacta o futuro de sua profissão

Por Communicare

Entenda como as causas trazem consequências profundas para a saúde da população negra no Brasil.

Por Vitória Caregnato

Banco de Dados: Pixabay

A faculdade de medicina ao longo de sua história passou por diversas transformações importantes para o avanço da melhoria da qualidade de vida da humanidade. Contudo, as instituições apresentam problemas ao longo da formação dos profissionais da saúde que impactam diretamente na saúde mental dos discentes e consequentemente no futuro de sua profissão.

Segundo a pesquisa realizada pelo Projeto VERAS (Vida de Estudante e Residente da área da Saúde) a qualidade de vida e a saúde mental dos estudantes de medicina estão em constante declínio. Há diversos fatores que corroboram para isso, são eles sociodemográficos, ambiente de ensino, esgotamento profissional – síndrome de Burnout – , exaustão emocional, sintomas de depressão, ansiedade e outros.

O estudo coletou dados de 22 escolas de medicina ao longo do Brasil e foram entrevistados 1350 estudantes. A pesquisa foi encerrada em 2017, mas ainda existem inúmeros artigos que abordam o tema. Além disso, foi aprovada em 2018 a ementa do projeto de Lei nº 10105/18, que prevê que as instituições ofereçam serviço gratuito de atendimento psicológico e psiquiátrico aos residentes e estudantes de medicina.

Essa realidade também está presente na Universidade Estadual Paulista (UNESP) em que o estudante Alberto* relata sobre suas vivências dentro da Faculdade de Medicina de Botucatu “Ao longo da graduação nos deparamos com situações extremamente difíceis e violentas, há competitividade entre colegas, há cobranças externas e internas, a relação entre professores e alunos é complicada e nós nos privamos de muitos prazeres.”

Na área cultural como filmes, seriados e novelas narra-se uma vida cheia de contentamentos, isso está longe do que vivenciam “Há uma desilusão muito grande com o curso e a profissão. E isso acontece devido às faltas que vemos em nosso meio de trabalho, seja ela de recursos materiais, equipe, condições ambientais adequadas dentre outras essenciais para a execução do trabalho médico” ressalta Alberto.

O jovem expõe sobre as cobranças temporais, as quais a saúde nem sempre se encaixa, o que leva a um cansaço, desgaste emocional e físico muito grande. “Um exemplo são os prontos-socorros com a falta de recursos necessários faz com que os médicos se tornem apáticos às situações vivenciadas. Essa sobrecarga pode levar-nos ao erro em situações delicadas.”

Alberto conta que todos esses fatores estão afetando diretamente sua turma e outras dentro da universidade. Sendo assim, ele destaca uma pesquisa feita, no ano passado, em sua turma na qual evidenciou algum sofrimento psíquico em mais da metade dos alunos.  O estudante também comenta sobre a Seapes (Serviço de Apoio Psicológico aos Estudantes) que passou a acolher os estudantes da faculdade de medicina e enfermagem da UNESP.

Como a formação acadêmica influencia diretamente nos atendimentos da saúde à população negra.

Para além dessa problemática, há ainda questões acerca de como os pacientes são impactados por isso. Alberto revela: “A faculdade de medicina exclui constantemente a população negra, nós não somos representados na teoria. Na prática nos deparamos com pacientes negros mas no momento do aprendizado teórico somos apagados.”

Segundo uma pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) do ano de 2008, 67% do público atendido no Sistema Único de Saúde (SUS) é negro. Além disso, uma pesquisa realizada em 2017 sobre o Boletim Epidemiológico relata que 69,5% da população negra busca por consulta médica sendo menor que a média nacional. 

Essa realidade é comprovada pela pesquisa de mestrado sobre o racismo institucional desenvolvida pelo enfermeiro Marcelo Vinicius Domingos Rodrigues que declara: “A maioria dos profissionais de saúde de nível superior no Brasil é constituída por pessoas brancas, em muitos casos os profissionais não foram preparados para lidar com as complexidades de ser negro e também do corpo negro no campo biofisiológico.”

Para ele, também, há outro fator que corrobora para a baixa procura das pessoas pretas aos atendimentos clínicos, como a subjetividade construída sobre as pessoas negras através da perspectiva das pessoas brancas. Afirma que os estereótipos são muitos e afetam diretamente na saúde dos homens negros. “Frantz Fanon e Grada Kilomba problematizam essa subjetividade e como isso nos danificam em nossa própria perspectiva. Na saúde isso afeta diretamente em como nos vemos, que devemos ser fortes e que não adoecemos.” complementa.

Mesmo com a implementação das Política Nacional de Saúde Integral da População Negra(PNSIPN) em 2009 ainda é pertinente o racismo institucional na saúde. O objetivo dessa política é promover a equidade de acesso à saúde integral a fim de reduzir as desigualdades étnicos-raciais, combatendo assim o racismo e a discriminação nas instituições e serviços do SUS.

De acordo com Marcelo essa política, infelizmente, é negligenciada. Ela existe nos discursos dos gestores da saúde, dos profissionais e também nos processos burocráticos, mas na prática não há aplicação. Ademais, as escolas e faculdades estão totalmente pautadas na história do colonizador a partir da mesma perspectiva. Não atoa, uma das lutas históricas do movimento social negro é pelo ensino da história e cultura africana, afro-brasileira e indígena nas escolas públicas. A lei 10.693 que depois foi modificada pela lei 11.645 é um marco histórico, entretanto se trata de uma legislação pouco aplicada, quando não negligenciada.”

Além disso, Santos alega que em toda área da saúde há um estudo do ser humano, não somente pela sua perspectiva biológica e sim pela social, econômica e histórica. Em casos da saúde da população negra, aponta que na literatura científica as pessoas negras estão mais expostas à determinação social da doença do que os outros fatores.

Para reverter essa realidade, Marcelo afirma que para a sociedade brasileira avançar nesses aspectos da saúde, é necessário reestruturar toda a educação, desde a básica até as faculdades. “A saída é abrir espaços para diferentes possibilidades de compartilhamento de conhecimento que pressupõem lógicas africanas, indígenas, orientais.” 

O papel da sociedade, tal como pontua Marcelo, diante do racismo e o seu impacto na população negra deve ser transformado, seja a nível individual como também em conjunto; E não somente a partir do uso de políticas inclusivas, mas que estas também tragam mudanças ao cotidiano. Dessa forma, Santos destaca que faz-se necessário em um primeiro momento, o reconhecimento do racismo e estabelecimento de uma nova ordem social no qual as pessoas negras sejam reconhecidas enquanto cidadãos de direito e deveres bem como uma pessoa branca.

Nota de esclarecimento: *O nome foi alterado para proteger a identidade do estudante.