DIA DA MULHER NEGRA LATINA E CARIBENHA: A IMPORT NCIA DO DIA 25 DE JULHO NA LUTA CONTRA O RACISMO

Por Communicare

No último dia 25, foi comemorado o dia da mulher negra latina e caribenha, entenda  a necessidade da data, explicada pela voz de quem vive na pele

Por Maria Eduarda Marrama

Ilustrações do livro Narrativas Negras, que homenageia e conta a história de 40 mulheres negras que mudaram a história do Brasil (Foto: Narrativas Negras)

No Brasil, 1888 marca o fim das injustiças raciais. Ou pelo menos, era o que deveria ter acontecido. 

Infelizmente, a realidade enfrentada no país, e no mundo todo, é completamente diferente. As raízes escravistas cobram seu preço ainda hoje, e, seja de forma escancarada ou estrutural, o racismo continua afetando a vida de milhões de pessoas, principalmente de mulheres negras afro-latinas-americanas e afro-caribenhas. 

Isso porque este grupo ainda sofre com as pressões do machismo, de estereótipos raciais midiáticos e sociais, além da tradição escravocrata e colonialista marcante na sociedade contemporânea.

A HISTÓRIA POR TRÁS DO DIA 25 DE JULHO

O panorama geral em relação à etnia não é nada favorável: Apesar da população negra no Brasil corresponder a maioria (cerca de  54%, segundo o IBGE), essa parcela também é a que mais está sujeita a estereótipos marginalizados. 

Colocando a questão gênero em ênfase, a situação é ainda pior! De acordo com pesquisas do Mapa da Violência, série de estudos realizados pela ONU, as mulheres negras têm menos oportunidades de estudos, têm salários menores, são as maiores vítimas do desemprego, sofrem mais violência e têm a menor porcentagem de representatividade política. 

Foi a partir dessa desigualdade em mente que, em 1992, um grupo de pessoas decidiu que era necessário se organizar de alguma forma para modificar esses dados, e que uma solução só poderia surgir da união de mulheres negras. Assim, elas organizaram o primeiro Encontro de Mulheres Negras Latinas e Caribenhas em Santo Domingo, na República Dominicana. Um espaço criado para pautar diversos problemas e alternativas, a fim de resolvê-los. 

Deste encontro nasceu a Rede de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-Caribenhas, que aliada à Organização das Nações Unidas (ONU), lutou para o reconhecimento do dia 25 de julho como o Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha.

No Brasil, o reconhecimento veio no dia 2 de junho de 2014, data instituída por meio da Lei nº 12.987, o dia 25 como também o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, homenageando uma das principais heroínas nacionais, símbolo de resistência quilombola contra às ações bandeirantes e uma importante líder na luta contra a escravidão.

ENTREVISTA COM DAMIRES: UMA VISÃO DE QUEM VIVE NA PELE

Para conversar sobre todas as problemáticas do que é o ser mulher negra no nosso país, e entendermos melhor sobre a vivência e realidade destas pessoas, convidamos a jovem Damiris, uma mulher brasileira negra, militante e engajada no movimento negro, para explicar quais são os principais questionamentos. 

Communicare Jr: PARA VOCÊ, PORQUE É NECESSÁRIO HAVER UM DIA ESPECÍFICO PARA A MULHER NEGRA AFRO-LATINA E CARIBENHA? JÁ COMPLETANDO, O QUE É SER MULHER E NEGRA, HOJE NO BRASIL? 

Damires Pereira: O dia da mulher negra latino-americana e caribenha existe para celebrar Tereza de Benguela, além dela todas as mulheres latinas/caribenhas que vieram antes, e que construíram a história das mulheres negras, né? Que construíram a história do país! Uma história de resistência e luta, para que hoje nós possamos ser mais fortes. 

Aí, quando você pergunta “porque é necessário o dia da mulher negra latina e caribenha?”, é a mesma resposta para quando se pergunta “ porque existe um feminismo negro, se já existe o feminismo?”; No feminismo, a pauta de raça é esquecida, enquanto no movimento negro, a pauta de gênero é excluída, e as coisas não podem ser assim… A ativista estadunidense Kimberlé Crenshaw cunhou o termo interseccionalidade – aqui no Brasil, temos como Carla Akotirene tratando do assunto na coleção plurais – , para demonstrar que os sistemas de opressão e discriminação relacionado as identidades sociais se sobrepõe, se intersectão, de forma que mulheres negras sofrem não somente com o machismo e sexismo, como também com o racismo.

É  por isso que existe o feminismo negra e por isso existe essa data, para enfim atender e reconhecer o peso dessas duas opressões interligadas (de gênero e raça), que atravessam nosso corpo preto todos os dias, e em todos os locais em que a gente se coloca: seja pela cor da pele, nossos traços, a textura do nosso cabelo, nossa inteligência e potencial subjugados pelos homens e pela branquitude. Ser mulher no Brasil é tentar ser resistência. E eu digo tentar porque não é fácil, né, ser resistência? É se reerguer, e é muito importante que nós mulheres negras estamos aquilombadas (unidas) com outras mulheres negras, para que a gente consiga fazer nossa resistência, né? 

Communicare: VOCÊ ACREDITA QUE O DIA INTERNACIONAL DA MULHER, CELEBRADO EM MARÇO, ACABA POR NÃO CONTEMPLAR TODAS AS MULHERES EM SUAS MÚLTIPLAS REALIDADES?

Damires: Eu, enquanto mulher negra,  acredito que o dia 08 de março não contempla todas as mulheres e suas múltiplas realidades. Isso é uma pauta que o movimento negro vai tratar. 

Quando a gente fala que esse dia se refere ao feminismo branco, é porque a data não atende a necessidade das mulheres negras. Porque enquanto as mulheres brancas estavam indo à luta, indo para as ruas lutar por seus direitos, mulheres negras estavam em trabalhos subalternos, e não estavam sendo reconhecidas, sabe? As suas pautas não eram levadas na rua, porque enquanto a mulher branca estava exigindo o direito de poder trabalhar e ter liberdade sexual, a mulher preta estava em casa, cuidando dos filhos da que estava protestando nas ruas. 

A história dessas mulheres negras ficaram apagadas, né? Onde está a história delas? 

Communicare: VOCÊ ACHA QUE JÁ CONSEGUIMOS SUPERAR NOSSO PASSADO ESCRAVAGISTA? ACREDITA QUE ELE SEJA UM DOS FATORES PELO QUAL, AINDA HOJE, A DESIGUALDADE DE GÊNERO É MAIS GRITANTE PARA MULHERES NEGRAS?

Damires: Eu não acho que a gente ainda não conseguiu superar nosso passado escravagista. Acho que a gente conseguiu dar passos importantes, mas superar ele por completo, não. 

E sim, todo esse passado escravocrata que a gente tem, tanto quando de mulher negra quanto em população negra em si, influencia totalmente nessas relações sociais atuais. A gente sabe que o racismo nasceu a partir da colonização, em que pessoas negras foram escravizadas e colocadas em posições subalternas, e a gente vê hoje alguns reflexos disso nos dias de hoje. 

A branquitude, de forma inconsciente ou não, ainda tem essa ideia de que ela é superior e tende a inferiorizar tanto a população negra quanto a população indígena. E isso a gente vê de forma completa no genocídio que acontece. 

Na desigualdade de gênero, foi como eu falei: olhando pela interseccionalidade, a gente percebe que a violência de gênero também está relacionada à raça. Precisamos falar sobre classe e raça, porque mulheres negras são as que mais sofrem no “ranking da violência”,  em que percebemos que ,enquanto o índice de mulheres brancas violentadas diminui, o de mulheres negras tende a aumentar. 

A raça, classe e gênero não estarão desassociados em nenhum momento, vão sempre estar interligados e influenciando nos papéis e opressões sociais. 

Communicare: PARTINDO PARA O PRESENTE, EM RELAÇÃO A PANDEMIA E AO COVID-19, ALÉM DOS PONTOS MAIS GERAIS, COMO VOCÊ VÊ A QUESTÃO DE SAÚDE PÚBLICA PARA MULHERES NEGRAS? 

* De acordo com a ONG Instituto Pólis, as mulheres negras são as mais afetadas pela pandemia:  140 mortes por 100 mil habitantes, contra 85 por 100 mil entre as brancas. 

*De acordo com o IBGE, mulheres, negros e pobres são os mais afetados pela doença. A cada dez pessoas que relatam mais de um sintoma da covid-19, sete são pretas ou pardas. Esse padrão se explica por desigualdades sociais e pelo preconceito.

Com o Covid-19, a gente percebe que a desigualdade de classe e raça fica bem mais escancarada. A ferida que estava tampada, sangrando apenas pelos ladinhos, com este vírus parece que ficou impossível disfarçar. 

A desigualdade racial e a história racista do país fazem com que hoje a população negra seja a maior porcentagem em situações de pobreza e periferia, condições mais suscetíveis, a propósito, ao contágio do vírus, por terem um acesso mais precário a informação, condições sanitárias, sistema de saúde de qualidade e possibilidade de manter-se em isolamento social. 

E quantas mulheres pretas não são periféricas? Não trabalham em serviços subalternos e em condições péssimas? A gente sabe que o valor de tudo aumentou, e essas mulheres em grande parte também são mães, são filhas, que estão vendo seus entes passando dificuldade e morrendo, seja pela doença ou pela violência ao seu redor. Como elas poderiam ficar em casa esperando essa pandemia passar, vivendo nesta realidade?

O livro de Carla Akotirene trata bastante disso, da diferença entre a mãe preta e mãe branca: enquanto a mãe branca se preocupa em sua maioria com a escola dos filhos, profissão e cuidados de saúde (você já consegue visualizar a classe dessa pessoas, né?), a mãe preta se preocupa apenas que seu filho sobreviva até seus 18 anos, pois a realidade das mães periféricas é essa, não tem uma visão de futuro tão longa. 

Communicare: E como lutar contra um vírus, e ainda lidar com todas essas questões? E QUAIS SERIAM AS PRINCIPAIS DEMANDAS DA MULHER NEGRA HOJE, FAZENDO UM RECORTE PARA A MULHER AFRO-LATINA BRASILEIRA PRINCIPALMENTE? VOCÊ ACHA QUE O BRASIL AVANÇOU NO ENFRENTAMENTO DO RACISMO?

Damires: As maiores demandas da mulher negra hoje, acredito que seja igualdade e respeito. No texto da  Akotirene ainda, ela explica que existe uma pirâmide, em que no topo está o homem branco. Logo abaixo, está a mulher branco, o homem negro e, na base de tudo, bem lá embaixo, está a mulher negra. 

É interessante pensar, inclusive, em como a base sustenta completamente toda a estrutura da pirâmide, porém não recebe nenhum dos privilégios concedidos a quem está em cima.

Communicare: E PARA VOCÊ, QUAL A MELHOR MANEIRA DE ENFRENTAR O RACISMO? 

Damires: Para mim, não existe uma maneira melhor de combater o racismo. Não tem uma solução mágica, nem um manual universal. 

Porém, o primeiro passo é reconhecer nossa realidade. Enquanto não reconhecermos que o Brasil é sim um país racista e genocida, a gente não consegue avançar

Os movimentos sociais, os coletivos, as assistentes sociais anti-racistas e os debates realizados por elas fazem um trabalho de base incrível, conscientizando e buscando por direitos, principalmente quando aliados ao estudo e leitura.  Mas é necessário que essa classe dominante reconheça tudo isso e faça sua parte combatendo a discriminação e o preconceito racial. 

Acredito que as mulheres negras precisam de mais espaço. Mais espaço na mídia, no jornalismo (como a Maju mesmo)… Mais mulheres negras e médicas como a Thelma, vencedora do BBB, influenciadoras e blogueiras como Camila de Lucas, cantoras como Rihanna, Beyoncé e Iza.

E não é que elas não ocupam esse espaço porque não querem. É porque não podem, por estarem majoritariamente dominados por pessoas brancas. São essas pessoas que precisam reconhecer seus privilégios e cederem um local de fala e criar, utilizando sua influência social/racial, mais espaços. 

Communicare: POSSUI ALGUMA DICA PARA QUE PESSOAS BRANCAS POSSAM SE TORNAR ALIADOS REALMENTE VÁLIDOS PARA A LUTA CONTRA ESSE PRECONCEITO RACIAL?

Damires: Para os brancos, o primeiro passo é reconhecer a existência do racismo. Não tem como combater a discriminação estrutural e enraizada se você, priviligiado pelo sistema, não reconhece suas vantagens raciais e se sente ofendido por falarem a verdade quando ocorre o racismo. Não é mimimi, é preconceito

Então, lá vai uma dica valiosa é: leia livros de mulheres negras, que são pesquisadoras com autoridade para explicar como ser antirracista. 

Para começar, leiam a obra “Pequeno Manual Antirracista”, da Djamila Ribeiro. Ele foi escrito para pessoas pessoas brancas, e tem alguns passos bem explicados e didáticos (com as referências de outras autoras que ela utilizou). 

Reconheça as vantagens que você recebeu devido a sua cor da pele, e seja um aliado na causa negra e na causa de gênero, porém lembrando sempre de respeitar o lugar de fala: não tente tirar o protagonismo das pessoas que já estão a séculos sendo silenciadas, ao contrário, utilize seus privilégios para ceder espaço para que elas possam compartilhar suas experiências e lutar contra suas opressões